sexta-feira, 30 de agosto de 2013

“Bem vindos à Medilândia, medicina com Disneylândia.” (Por Pascoal Albuquerque)



NÃO, absolutamente NÃO. Mil vezes NÃO. Simples assim. Vou voltar um pouco no tempo para tentar explicar o ”não” tão incisivo. No governo de Fernando Henrique Cardoso, ele e o ministro Paulo Renato transformaram a educação desse país num serviço, num "bem" que fez o deleite de empresários inescrupulosos sem nenhum compromisso com a educação, ávidos pelo lucro desmedido e predador. Esse foi o início do caldo de cultura que predomina até os dias de hoje, sociedade permissiva, governantes incompetentes, empresários nefastos.
               De 2000 a 2012 o governo autorizou por pressão desses empresários o funcionamento de 98 novas escolas de medicina, 70% delas no sul e sudeste ricos e congestionados, 74% delas particulares. A Presidente Dilma Rousseff anuncia a abertura de 4500 novas vagas para alunos de medicina o que corresponde a 55 novas escolas, quantas nos confins do país? Já temos 198 faculdades de medicina que fazem (com honrosas exceções) o pior tipo de medicina, voltada para a indústria de exames complementares e para a matança da indústria das drogas.
               É verdade que as pessoas precisam de médicos, mas também é verdade que nem sempre o médico colabora mais para a saúde do que para o adoecimento dessas pessoas. Milhares de artigos científicos mostram a diminuição da mortalidade em áreas onde os médicos estão em greve, e a iatrogenia nem sequer é discutida em nossas faculdades. Quando em São Paulo um avião caiu matando quase 200 pessoas a mídia se alvoroçou, durante muito tempo vendeu muito, enquanto as famílias enlutadas esbarravam na burocracia imoral e dolorosa. No entanto, silenciosamente, como que na ponta dos pés, POR DIA, os médicos derrubam 5 boeings por imperícia, imprudência e negligência! Por ano, 6000 médicos que se formam não conseguem fazer a residência, caminho natural para sua qualificação, e, como disse o Papa Francisco "é importante promover uma formação qualificada que crie pessoas capazes de descer na noite sem serem invadidas pela escuridão, e se perderem".
               Tenho um irmão que numa grande capital teve um episódio de taquicardia ventricular, e num desses assombros milagrosos ficou 4 horas nessa taquicardia ventricular procurando desesperadamente, nessa grande capital um ÚNICO médico capaz de reverter o processo. Quatro horas em taquicardia ventricular!!!!!!. Revertida a taquicardia, ele foi encaminhado à uma UTI, evoluindo com emergência hipertensiva, infarto agudo do miocárdio e cirurgia de revascularização.
Precisamos sim de mais médicos, qualificados, comprometidos, com espírito hipocrático, porque esses hoje até existem, mas são a mais honrosa das exeções. Nada contra os jovens médicos, serão recebidos com carinho e respeito, à duras penas cumprirão as suas tarefas, estão cheios de sonhos, sejam portanto bem vindos a Medilândia, medicina com Disneylândia.
(Pascoal Albuquerque é medico intensivista e servidor municipal)

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